Ars Rhetorica

domingo, 11 novembro 2007

Entartete Kunst, a exposição – parte I

Filed under: arte — tresoldi @ 9:59 pm

Em 30 de junho de 1930, tomando direção na luta à arte degenerada, Goebbels dera ordem para o confisco de toda obra do tipo. Estas foram mais tarde organizadas na torpe exposição de mesmo nome, Entartete Kunst, aleatoriamente mescladas à produção de diagnosticados doentes mentais (o que lembra tristemente as metodologias sobre Wain) e agrupadas sob dizeres quais “Revelação da alma racial judia”, “Fazendeiros alemães – uma visão Yiddish” e “A loucura torna-se um método”. Diversas foram as reações dos artistas degenerados: entre outros, exílio externo para Ernst, exílio interno para Dix e suicídio para Kirchner.

Eis uma amostra de tais obras, de ditos autores mas não necessariamente daquela exposição (inclusive uma fonte, em minha luta perene para difundir a tipografia como arte).

Mann mit Pferd

Jankel Adler, “Mann mit Pferd” (Homem com cavalo), 1929

The Magdeburger Ehrenmal, Barlach

Ernst Barlach, “The Magdeburger Ehrenmal”, ?

Andante II

Rudolf Bauer, “Allegro II”, 1918

Achitype Bayer

Herbert Bayer, fonte “Architype”, 1925

Karneval

Max Backmann, “Karneval” (Carnaval), 1943

Max Schmeling

Rudolf Belling, “Max Schmeling“, 1929

Campendonk

Heinrich Campendonk, título desconhecido, 1918

Pietá

Lovis Corinth, “Pietà”, 1920

Tropas avançando sob gás

Otto Dix, “Tropas avançando sob gás”, 1924

Gaberndorf II

Lyonel Feininger, “Gaberndorf II”, 1924

Dia cinza

George Grosz, “Dia cinza”, ?

Retrato de um homem

Erich Heckel, “Retrato de um homem”, 1919

Operário

Heinrich Hörle, “Arbeiter (Dritter Zustand)” [Operário (Terceiro estado)], 1923

Quartos escuros

Karl Hofer, “Os quartos escuros”, 1943

Rua de Berlim

Ernst Ludwig Kirchnew, “Rua de Berlim” (da série das prostitutas), 1913

O que conta é a trama

Filed under: literatura — tresoldi @ 5:42 pm

Visto que todos têm me pedido, eis meus resumos de obras literárias inspirados (e em certos casos traduzidos ou adaptados sem pudores) numa experiência análoga do Corriere della Sera.

Esperando Godot (Samuel Beckett)

Duas pessoas esperam por Godot, que nunca chega.

Alice no país das maravilhas (Lewis Carroll)

Menina curiosa em crise de megalomania persegue coelho para jogar cartas com rainha.

Doutor Zhivago (Boris Pasternak)

Médico indeciso apaixona-se por enfermeira; perde-a, reencontra-a, perde-a novamente e morre.

Hamlet (William Shakespeare)

Príncipe adolescente de inclinações espíritas busca vingar-se da mãe. Morrem todos.

Anna Karenina (Leo Tolstoy)

Esposa adúltera interessa-se por trens e falece devido a estes.

O barão das árvores (Italo Calvino)

Filho de aristocracia decadente decide morar em árvore para escapar do almoço.

O amor nos tempos do cólera (Gabriel García Marquez)

Teimoso jogador de xadrez Florentino Ariza apaixona-se por Fermina Daza e leva anos para conquista-la.

O velho e o mar (Ernest Hemingway)

Pescador de má sorte revela primeiros sinais de demência ao dialogar com tubarão.

Antígona (Sófocles, além de outros)

Moça de propensões necrófilas solicita cerimônia fúnebre para seu irmão. Morrem todos os bons.

A metamorfose (Frank Kafka)

Homem desperta em forma de inseto, mas sua rotina pouco muda.

Cândido ou O otimismo (Voltaire)

Dr. Pangloss afirma ser este o melhor dos mundos e, ao final, Cândido concorda.

Os sofrimentos do jovem Werther (Goethe)

Artista alemão apaixona-se por noiva de outro e beija-a. Em seguida, dá-se um tiro.

L’infinito (Giacomo Leopardi)

Abrucês virgem tem a visão do panorama obstruída por plantas.

O conde de Montecristo (Alexandre Dumas, père)

Edmundo gasta sua fortuna vingando-se de amigos que já não se lembram mais dele.

O corvo (Edgar Allan Poe)

Erudito solitário tem crise de insônia e põe a culpa em um pássaro.

Canzoniere (Francesco Petrarca)

Clérigo apaixona-se por mulher casada que morre à metade do livro. Nada mais de relevante acontece.

A consciência de Zeno (Italo Svevo)

Italiano suscetível não consegue parar de fumar.

O alquimista (Paulo Coelho)

Pastor enfadado abandona suas posses para percorrer o deserto; ao final, encontra consorte em oásis.

Decameron (Giovanni Boccaccio)

Dez florentinos devassos narram histórias enquanto seus vizinhos morrem.

Crime e castigo (Fyodor Dostoevsky)

Russo arrogante assassina impunemente velha mesquinha; uma prostituta convence-o a se entregar e cumprir pena na Sibéria.

Bíblia

Deus cria o mundo e, desiludido, inunda-o salvando um velho e alguns bichos. Quando seu filho chega em visita, não é reconhecido.

Eneida (Virgílio)

Romance urbano: guerreiro foge de Tróia, passa temporada lasciva em Cartago e funda Roma.

Ulisses (James Joyce)

“Querida, vou dar um passeio. Podes ficar na cama.”

Volta ao mundo em 80 dias (Jules Verne)

Inglês desocupado faz aposta geográfica e vence-a por ser pouco entendido no assunto.

Guerra e paz (Leo Tolstoy)

Ele ama-a, mas ela ama outro. Enquanto isso Napoleão invade a Rússia.

Odisséia (Homero)

Guerreiro retorna a casa após vários anos; ao chegar, sua mulher diz tê-lo esperado sozinha.

Ilíada (Homero)

Um monte de nomes, combatem durante dez anos por uma mulher que não lhes pertence.

Madame Bovary (Gustave Flaubert)

Francesa enfadada casa-se com médico entediante, trai-o e mata-se.

Fausto (Goethe, além de outros)

Cientista medieval julga-se mais versado que o Diabo, mas dá-se mal.

Comédia (Dante Alighieri)

Narigudo em crise de meia-idade narra viagem com colega de trabalho e ex.

Otelo (William Shakespeare)

Vêneto negro é convencido por amigo do adultério da esposa. Morrem todos.

Em busca do tempo perdido (Marcel Proust)

Francês prolixo come uma bolacha e escreve sete livros narrando o processo.

O processo (Frank Kafka)

(inacreditável, mas justiça austro-húngara era mais funesta que a brasileira)

O pequeno príncipe (Antoine de Saint Exupéry)

Piloto sem dons artísticos encontra um alienígena mordido por uma cobra.

Do sendo Hefesto o tecnológico entre os deuses

Filed under: clássico — tresoldi @ 2:00 pm

Ἥφαιστος δ᾽ ἅμα τοῖσι κίε σθένεϊ βλεμεαίνων
χωλεύων, ὑπὸ δὲ κνῆμαι ῥώοντο ἀραιαί.

(Homero, Ilíada 20.37)

(“E junto destes estava Hefesto, exultante de seu poder, cessando o passo, mas atrás de si suas pernas desfiguradas moviam-se ágeis”, tradução própria)

Minha literatura

Filed under: literatura — tresoldi @ 1:44 pm

Lídia Jorge, A manta do soldado ou O vale da paixão, 1998:

“Mas a escassez de pormenores fortalecia a imaginação de Francisco Dias.”

Talvez por isto receie sempre ser enganado pelos fluxos de consciência que pouco deixam aos interditos: mais valem as minúcias do escudo de Hefesto.

quinta-feira, 20 setembro 2007

Entartete Kunst

Filed under: arte, estética — tresoldi @ 2:20 pm

A notícia vem da BBC, via Art History Newsletter: o arcebispo de Colonha está sendo criticado por ter se referido à arte moderna, quem sabe contemporânea, como “degenerada”. Mais que pelo conteúdo, as barricadas foram levantadas com razão pela forma: a etimologia de “entartete Kunst”, a tal “arte degenerada”, é distintamente nazista e seria difícil omitir o seqüestro de quadros subversivos e da queima de livros corrompidos. Ironicamente, a declaração parece vir do discurso de abertura do Kolumba Art Museum, iniciativa de seu próprio arcebispado no âmbito de instalações e pinturas abstratas.

Colonha segue portanto figurando nas últimas resenhas estéticas, após o rumor em torno do novo vitral de sua catedral, desenhado pelo minimalista alemão Gerhard Richter:

Vitral da catedral de Colonha

Sim, pixelado como uma imagem com zoom em excesso. O jogo de cores é simpático e deixa um sabor de anos ’70, quando Richter compôs a base da obra. Mas o estranhamento que causa é negativo; um vitral, supõe-se, deveria refletir didaticamente sua ideologia e decorar, pois estes templos nasceram também como prova da técnica da qual os construtores eram dotados ou podiam dotar-se. Em resumo, o vitral ideal quer também, consiga-o ou não, ser belo, como este da mesma catedral:

É de pouca surpresa que nosso pixelado, pelo valor que possa ter, esteja na galeria errada: há tempos uma arte que se julga inovadora pensa que uma nova beleza significa a abolição da mesma ou um distanciamento intencional do já visto. Não por acaso, a grande parte das instalações são adjetivadas por supreendentes, insurgentes, contestadoras, de nova leitura, majestosas e astutas, mas raramente por belas. As saudades de um passado que nunca existiu, de que tanto sofre este conservadorismo, são facilitadas, e pouco difícil é adotar este esquivo moralismo tipicamente nórdico, quimera vitoriana e bizantina. Me pergunto o que diria nosso arcebispo Meisner sobre uma obra como o “Corpus Hypercubus” de Dalí, também citada por nossa fonte:

Corpus Hypercubus

Tão claramente sua, que a atribuição seria desnecessária. Gala, sua eterna musa russa, está aos pés de um Salvador (seja um Cristo Salvador ou um Salvador Dalí — pouco importa, e de qualquer forma não podemos ver-lhe o rosto) heróico, em êxtase, vitorioso e em muito distante àquele Jesus das telas realistas de Mel Gibson. Dalí deve ter jogado com o ditado espanhol “a mal cristo, mucha sangre“, pois sua obra é inegavelmente boa e bela: suas minúcias não cansariam como o caleidoscópio de Richter.

Mas nem só de beleza vive a arte, e nisto a crítica oitocentista tinha plena razão. O retrato de Dalí é da era nuclear e mecânica, do homem que se acredita inédito. Se é um Cristo, é secularizado: seria ainda mais difícil achar, tanto nas paredes da catedral alemã quanto na mente de seus sacerdotes, um vão onde coubesse.

quarta-feira, 19 setembro 2007

Da lista de compras

Filed under: arte, clássico — tresoldi @ 10:14 pm

Começamos e seguimos clássicos. Esta, visão para todo classicista, pesquei lá no BoingBoing:

345070681_43f6c8a982.jpg

Sim, a parte pintada deveria ser a preta e não a vermelha, ma non siate così pignoli

Traduttore, traditore

Filed under: clássico, tradução — tresoldi @ 6:19 pm

Um dos últimos posts do Abandoned Footnotes, um blog tão abandonado quanto seu nome, traz uma piada (more a pun than a joke) em grego clássico!

Πλάτωνος ὁρισαμένου, Ἄνθρωπός ἐστι ζῷον δίπουν ἄπτερον, καὶ εὐδοκιμοῦντος, τίλας ἀλεκτρυόνα εἰσήνεγκεν αὐτὸν εἰς τὴν σχολὴν καί φησιν, “οὗτός ἐστιν ὁ Πλάτωνος ἄνθρωπος.” ὅθεν τῷ ὅρῳ προσετέθη τὸ πλατυώνυχον. (Diogenes Laertius, VI.40)

Que, traduzido com aquela liberdade de arrepiar qualquer filólogo, fica:

Platão definira o homem como um bípede sem penas e fora muito aplaudido [por causa disto]. [Diógenes, sabendo disto,] levou uma galinha despenada à escola e disse: “Eis o homem de Platão”. Então a definição foi alterada, adicionando-se “e com unhas compridas”.

Não, o post não termina aqui. Tal como Frost que, certa feita, disse ser a poesia exatamente o que se perde ao traduzir, digo que aqui se perde o cômico; πλατυώνυχον, platyônykhon ou “com (a qualidade de ter) unhas compridas”, é fonologicamente similar a πλατώνικον, platônikon ou “com a qualidade de ser platônico” — o homem é sim um bípede sem penas, mas platonicamente, idealmente.

Nosso blogueiro acha a história pouco engraçada, mas eu discordo: é excelente.

O eterno retorno

Filed under: metablog — tresoldi @ 5:56 pm

Não, Nietzsche non centra, mas o título cai como uma luva.

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