Ars Rhetorica

domingo, 11 novembro 2007

O que conta é a trama

Filed under: literatura — tresoldi @ 5:42 pm

Visto que todos têm me pedido, eis meus resumos de obras literárias inspirados (e em certos casos traduzidos ou adaptados sem pudores) numa experiência análoga do Corriere della Sera.

Esperando Godot (Samuel Beckett)

Duas pessoas esperam por Godot, que nunca chega.

Alice no país das maravilhas (Lewis Carroll)

Menina curiosa em crise de megalomania persegue coelho para jogar cartas com rainha.

Doutor Zhivago (Boris Pasternak)

Médico indeciso apaixona-se por enfermeira; perde-a, reencontra-a, perde-a novamente e morre.

Hamlet (William Shakespeare)

Príncipe adolescente de inclinações espíritas busca vingar-se da mãe. Morrem todos.

Anna Karenina (Leo Tolstoy)

Esposa adúltera interessa-se por trens e falece devido a estes.

O barão das árvores (Italo Calvino)

Filho de aristocracia decadente decide morar em árvore para escapar do almoço.

O amor nos tempos do cólera (Gabriel García Marquez)

Teimoso jogador de xadrez Florentino Ariza apaixona-se por Fermina Daza e leva anos para conquista-la.

O velho e o mar (Ernest Hemingway)

Pescador de má sorte revela primeiros sinais de demência ao dialogar com tubarão.

Antígona (Sófocles, além de outros)

Moça de propensões necrófilas solicita cerimônia fúnebre para seu irmão. Morrem todos os bons.

A metamorfose (Frank Kafka)

Homem desperta em forma de inseto, mas sua rotina pouco muda.

Cândido ou O otimismo (Voltaire)

Dr. Pangloss afirma ser este o melhor dos mundos e, ao final, Cândido concorda.

Os sofrimentos do jovem Werther (Goethe)

Artista alemão apaixona-se por noiva de outro e beija-a. Em seguida, dá-se um tiro.

L’infinito (Giacomo Leopardi)

Abrucês virgem tem a visão do panorama obstruída por plantas.

O conde de Montecristo (Alexandre Dumas, père)

Edmundo gasta sua fortuna vingando-se de amigos que já não se lembram mais dele.

O corvo (Edgar Allan Poe)

Erudito solitário tem crise de insônia e põe a culpa em um pássaro.

Canzoniere (Francesco Petrarca)

Clérigo apaixona-se por mulher casada que morre à metade do livro. Nada mais de relevante acontece.

A consciência de Zeno (Italo Svevo)

Italiano suscetível não consegue parar de fumar.

O alquimista (Paulo Coelho)

Pastor enfadado abandona suas posses para percorrer o deserto; ao final, encontra consorte em oásis.

Decameron (Giovanni Boccaccio)

Dez florentinos devassos narram histórias enquanto seus vizinhos morrem.

Crime e castigo (Fyodor Dostoevsky)

Russo arrogante assassina impunemente velha mesquinha; uma prostituta convence-o a se entregar e cumprir pena na Sibéria.

Bíblia

Deus cria o mundo e, desiludido, inunda-o salvando um velho e alguns bichos. Quando seu filho chega em visita, não é reconhecido.

Eneida (Virgílio)

Romance urbano: guerreiro foge de Tróia, passa temporada lasciva em Cartago e funda Roma.

Ulisses (James Joyce)

“Querida, vou dar um passeio. Podes ficar na cama.”

Volta ao mundo em 80 dias (Jules Verne)

Inglês desocupado faz aposta geográfica e vence-a por ser pouco entendido no assunto.

Guerra e paz (Leo Tolstoy)

Ele ama-a, mas ela ama outro. Enquanto isso Napoleão invade a Rússia.

Odisséia (Homero)

Guerreiro retorna a casa após vários anos; ao chegar, sua mulher diz tê-lo esperado sozinha.

Ilíada (Homero)

Um monte de nomes, combatem durante dez anos por uma mulher que não lhes pertence.

Madame Bovary (Gustave Flaubert)

Francesa enfadada casa-se com médico entediante, trai-o e mata-se.

Fausto (Goethe, além de outros)

Cientista medieval julga-se mais versado que o Diabo, mas dá-se mal.

Comédia (Dante Alighieri)

Narigudo em crise de meia-idade narra viagem com colega de trabalho e ex.

Otelo (William Shakespeare)

Vêneto negro é convencido por amigo do adultério da esposa. Morrem todos.

Em busca do tempo perdido (Marcel Proust)

Francês prolixo come uma bolacha e escreve sete livros narrando o processo.

O processo (Frank Kafka)

(inacreditável, mas justiça austro-húngara era mais funesta que a brasileira)

O pequeno príncipe (Antoine de Saint Exupéry)

Piloto sem dons artísticos encontra um alienígena mordido por uma cobra.

Anúncios

Minha literatura

Filed under: literatura — tresoldi @ 1:44 pm

Lídia Jorge, A manta do soldado ou O vale da paixão, 1998:

“Mas a escassez de pormenores fortalecia a imaginação de Francisco Dias.”

Talvez por isto receie sempre ser enganado pelos fluxos de consciência que pouco deixam aos interditos: mais valem as minúcias do escudo de Hefesto.

Blog no WordPress.com.