Ars Rhetorica

quarta-feira, 14 novembro 2007

De minhas artes plásticas

Filed under: arte, estética — tresoldi @ 1:00 am

As postagens sobre artes plásticas parecem ter revelado um gosto estético distante: destas obras tenho, via de regra, a opinião sobre aquela literatura tão engajada e tão acadêmica que já nasce mal-parecida. Seu mérito é fundamentalmente histórico, não estético; são documentos, não monumentos.

De tal feita, a série continuará, mas permito um parêntese a alguns monumentos.

LaocoonteDa escultura clássica, de época já tardia: “Laocoonte e seus dois filhos”, Hagesandro, Polidoro e Atenodoro, século I

Sesshu

Da soibukoga (水墨画), a pintura oriental com tinta e água: “Paisagem de outono”, Sesshū Tōyō (雪舟 等楊), século XV

Fayum

Da pintura mortuária de Al-Fayum, síntese egípcio-greco-romana: “Mulher”, autor desconhecido, séculos III-IV d.C.

Theotokos

Da arte bizantina, não numerosa: “Theotokos de Vladimir”, autor desconhecido, século XII

Le Très Riches Heures

Das miniaturas: “Très Riches Heures du Duc de Berry (Janeiro)”, irmãos Limbourg, século XV

Giotto

De Giotto (sim, merece uma categoria à parte): “Adoração dos Magos”, Giotto, século XIII

Mantegna

Do Rinascimento: “A lamentação sobre o Cristo morto”, Andrea Mantegna, século XV

Bella giardiniera

Do Rinascimento: “A bela jardineira”, Raffaello (período florentino), século XVI

Deposizione

Do Rinascimento: “A deposição”, Michelangelo, século XVI

Durer

Do Renascimento setentrional: “Mãos que rezam”, Albrecht Dürer, século XVI

Cestello

Do Rinascimento: “Anunciação Cestello”, Botticelli, século XV

Caravaggio

Do Barroco: “Crucificação de São de Pedro”, Caravaggio, século XVII

Vermeer

Do Barroco: “Oficial e moça rindo”, Vermeer, século XVII

Velázquez

Do Barroco: “Velha fritando ovos”, Velázquez, século XVII

Friedrich

Do Romantismo: “Paisagem de inverno”, Caspar David Friedrich, século XIX

Corot

Da Escola de Barbizon: “Mulher com pérola”, Jean-Baptiste-Camille Corot, século XIX

Renoir

Do Impressionismo: “Na terraça” ou “Duas irmãs”, Pierre-Auguste Renoir, século XIX

Canova

Do Neo-classicismo: “Madalena”, Antonio Canova, século XIX

Bouguereau

Do Academicismo: “A lição difícil”, William-Adolphe Bouguereau, século XIX

Roy Lichtenstein

Da Pop-art: “Moça se afogando”, Roy Lichtenstein, século XX

Asterix

Dos quadrinhos: “Asterix, Obelix e Ideafix”, Albert Uderzo, séculos XX e XXI

(infelizmente tive de reduzir o post, havia bem mais obras previstas)

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quinta-feira, 20 setembro 2007

Entartete Kunst

Filed under: arte, estética — tresoldi @ 2:20 pm

A notícia vem da BBC, via Art History Newsletter: o arcebispo de Colonha está sendo criticado por ter se referido à arte moderna, quem sabe contemporânea, como “degenerada”. Mais que pelo conteúdo, as barricadas foram levantadas com razão pela forma: a etimologia de “entartete Kunst”, a tal “arte degenerada”, é distintamente nazista e seria difícil omitir o seqüestro de quadros subversivos e da queima de livros corrompidos. Ironicamente, a declaração parece vir do discurso de abertura do Kolumba Art Museum, iniciativa de seu próprio arcebispado no âmbito de instalações e pinturas abstratas.

Colonha segue portanto figurando nas últimas resenhas estéticas, após o rumor em torno do novo vitral de sua catedral, desenhado pelo minimalista alemão Gerhard Richter:

Vitral da catedral de Colonha

Sim, pixelado como uma imagem com zoom em excesso. O jogo de cores é simpático e deixa um sabor de anos ’70, quando Richter compôs a base da obra. Mas o estranhamento que causa é negativo; um vitral, supõe-se, deveria refletir didaticamente sua ideologia e decorar, pois estes templos nasceram também como prova da técnica da qual os construtores eram dotados ou podiam dotar-se. Em resumo, o vitral ideal quer também, consiga-o ou não, ser belo, como este da mesma catedral:

É de pouca surpresa que nosso pixelado, pelo valor que possa ter, esteja na galeria errada: há tempos uma arte que se julga inovadora pensa que uma nova beleza significa a abolição da mesma ou um distanciamento intencional do já visto. Não por acaso, a grande parte das instalações são adjetivadas por supreendentes, insurgentes, contestadoras, de nova leitura, majestosas e astutas, mas raramente por belas. As saudades de um passado que nunca existiu, de que tanto sofre este conservadorismo, são facilitadas, e pouco difícil é adotar este esquivo moralismo tipicamente nórdico, quimera vitoriana e bizantina. Me pergunto o que diria nosso arcebispo Meisner sobre uma obra como o “Corpus Hypercubus” de Dalí, também citada por nossa fonte:

Corpus Hypercubus

Tão claramente sua, que a atribuição seria desnecessária. Gala, sua eterna musa russa, está aos pés de um Salvador (seja um Cristo Salvador ou um Salvador Dalí — pouco importa, e de qualquer forma não podemos ver-lhe o rosto) heróico, em êxtase, vitorioso e em muito distante àquele Jesus das telas realistas de Mel Gibson. Dalí deve ter jogado com o ditado espanhol “a mal cristo, mucha sangre“, pois sua obra é inegavelmente boa e bela: suas minúcias não cansariam como o caleidoscópio de Richter.

Mas nem só de beleza vive a arte, e nisto a crítica oitocentista tinha plena razão. O retrato de Dalí é da era nuclear e mecânica, do homem que se acredita inédito. Se é um Cristo, é secularizado: seria ainda mais difícil achar, tanto nas paredes da catedral alemã quanto na mente de seus sacerdotes, um vão onde coubesse.

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