Ars Rhetorica

quinta-feira, 22 novembro 2007

Policarpo Quaresma não lia Álvares de Azevedo

Filed under: Uncategorized — tresoldi @ 2:00 pm

Deliciosa citação que encontrei no “Formação da Literatura Brasileira” de Antônio Cândido, um dos principais tomos das próximas semanas:

Falam nos gemidos da noite no sertão, nas tradições das raças perdidas das florestas, nas torrentes das serranias, como se lá tivessem dormido ao menos uma noite, como se acordassem procurando túmulos, e perguntando como Hamleto no cemitério a cada caveira do deserto o seu passado.

Mentidos! Tudo isso lhes veio à mente lendo as páginas de algum viajante que esqueceu-se talvez de contar que nos mangues e nas águas do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração: que na floresta há insetos repulsivos, répteis imundos, que a pele furta-cor do tigre não tem o perfume das flores – que tudo isto é sublime nos livros, mas é soberanamente desagradável na realidade. (Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Obras)

Anúncios

quinta-feira, 15 novembro 2007

Vênus purificadora

Filed under: Uncategorized — tresoldi @ 3:26 pm

Ao passo que conceituados acadêmicos seguem a sustentar que a mitologia romana era uma tradução da grega, aqui prestamos louvor a uma deusa muito omitida, Cloacina, regente dos esgotos. Antes dos comentários tornarem-se piadas escatológicas, cabe lembrar do mérito dos esgotos romanos para esta civilização da qual somos a descendência.
De provável origem etrusca e mencionada já por Lívio (iii, 48), Cloacina (ou, raro, Cluacina) é uma deusa que gradualmente tornou-se um sobrenome a Vênus e regia os rituais de purificação, por extensão também a Cloaca Maxima; segundo a lenda, durante a construção da mesma uma estátua sua fora descoberta pelos operários etruscos envolvidos. Em uma etimologia digna da tradição que inclui Isidoro e Heidegger, um certo Lactantius fazia-a resalir precisamente ao mais famoso entre os esgotos, desconsiderando a origem sustentada por Plínio, o velho, de que seu nome deriva do verbo “cluere” (“limpar, polir, purificar”) ou “como os antigos diziam purgare“, e do qual, por sinal, o próprio “cloaca” deriva:

Arbor ipsa in Europae citeriore caelo, quod a Cerauniis montibus incipit, primum Cerceis in Elpenoris tumulo visa traditur Graecumque ei nomen remanet, quo peregrinam esse apparet. fuit, ubi nunc Roma est, iam cum conderetur; quippe ita traditur, myrtea verbena Romanos Sabinosque, cum propter raptas virgines dimicare voluissent, depositis armis purgatos in eo loco qui nunc signa Veneris Cluacinae habet; cluere enim antiqui purgare dicebant. (Naturalis Historia, XV, xxxvi – grifo meu)

O Online Etymological Dictionary faz derivar “cluere” do PIE *klu- de mesmo sentido (pela curiosidade, no Isidro Pereira encontrei Κλύζω qual “açoitar com ondas; banhar, lavar, limpar” e nestas horas me falta um bom etimólogo por amigo). A derivação é confirmada pelo mito fundacional de que, após as sabinas raptadas prevenirem o derramamento de sangue entre Rômulo e Tito Tácio, ambos os exercitos teriam se purificado com brotos de mirta onde seria erigido o templo da Vênus Cloacina.

Cloacina Moneta

Já em época republicana e imperial, Cloacina era reverenciada neste pequeno santuário frente à majestosa Basilica Aemilia e diretamente sobre a Cloaca Maxima, aqui recriado a partir da moeda original acima:

Cloacina

A eleição de Cloacina como protetora do bem-comportado e puro sexo matrimonial não passa de um anacronismo que merece apenas esta nota de post-scriptum.

quarta-feira, 14 novembro 2007

De minhas artes plásticas

Filed under: arte, estética — tresoldi @ 1:00 am

As postagens sobre artes plásticas parecem ter revelado um gosto estético distante: destas obras tenho, via de regra, a opinião sobre aquela literatura tão engajada e tão acadêmica que já nasce mal-parecida. Seu mérito é fundamentalmente histórico, não estético; são documentos, não monumentos.

De tal feita, a série continuará, mas permito um parêntese a alguns monumentos.

LaocoonteDa escultura clássica, de época já tardia: “Laocoonte e seus dois filhos”, Hagesandro, Polidoro e Atenodoro, século I

Sesshu

Da soibukoga (水墨画), a pintura oriental com tinta e água: “Paisagem de outono”, Sesshū Tōyō (雪舟 等楊), século XV

Fayum

Da pintura mortuária de Al-Fayum, síntese egípcio-greco-romana: “Mulher”, autor desconhecido, séculos III-IV d.C.

Theotokos

Da arte bizantina, não numerosa: “Theotokos de Vladimir”, autor desconhecido, século XII

Le Très Riches Heures

Das miniaturas: “Très Riches Heures du Duc de Berry (Janeiro)”, irmãos Limbourg, século XV

Giotto

De Giotto (sim, merece uma categoria à parte): “Adoração dos Magos”, Giotto, século XIII

Mantegna

Do Rinascimento: “A lamentação sobre o Cristo morto”, Andrea Mantegna, século XV

Bella giardiniera

Do Rinascimento: “A bela jardineira”, Raffaello (período florentino), século XVI

Deposizione

Do Rinascimento: “A deposição”, Michelangelo, século XVI

Durer

Do Renascimento setentrional: “Mãos que rezam”, Albrecht Dürer, século XVI

Cestello

Do Rinascimento: “Anunciação Cestello”, Botticelli, século XV

Caravaggio

Do Barroco: “Crucificação de São de Pedro”, Caravaggio, século XVII

Vermeer

Do Barroco: “Oficial e moça rindo”, Vermeer, século XVII

Velázquez

Do Barroco: “Velha fritando ovos”, Velázquez, século XVII

Friedrich

Do Romantismo: “Paisagem de inverno”, Caspar David Friedrich, século XIX

Corot

Da Escola de Barbizon: “Mulher com pérola”, Jean-Baptiste-Camille Corot, século XIX

Renoir

Do Impressionismo: “Na terraça” ou “Duas irmãs”, Pierre-Auguste Renoir, século XIX

Canova

Do Neo-classicismo: “Madalena”, Antonio Canova, século XIX

Bouguereau

Do Academicismo: “A lição difícil”, William-Adolphe Bouguereau, século XIX

Roy Lichtenstein

Da Pop-art: “Moça se afogando”, Roy Lichtenstein, século XX

Asterix

Dos quadrinhos: “Asterix, Obelix e Ideafix”, Albert Uderzo, séculos XX e XXI

(infelizmente tive de reduzir o post, havia bem mais obras previstas)

segunda-feira, 12 novembro 2007

Obscenidades gregas

Filed under: clássico, língua — tresoldi @ 5:03 pm

…ou “minha descida irremediável ao não profissionalismo”.

Prestando homenagem ao Paulo, reuni as poucas fontes à disposição e selecionei alguns “palavrões” desta coletânea lingüística que chamamos de “grego clássico”. Em suma, trata-se da monumental “A History of Ancient Greek” editada por A.-F. Christidis (doações aceitas, por sinal) e um post do não menos valioso blog “Nestor’s Cup“, cuja fonte é certo artigo “Six Greek Verbs of Sexual Congress” de David Bain (1991).

A linguagem obscena, como sabiamente afirma Christidis, é necessária a qualquer comunidade: apesar de moralismos onipresentes que a contrastam, esta é uma maneira de estabelecer contato e favorecer a expressão, tanto para a criação de intimidade quanto para a intimidação de adversários e inimigos ou a ridicularização de oponentes. A relação necessariamente direta com as práticas sexuais é motivo para o papel histórico como um dos rituais de passagem na raiz da sociedade ocidental (e duvido seriamente que não o seja em todas as sociedades). Até mesmo imaginar que a altivez que a restringe seja uma particularidade nossa é pura tolice: Sermonides de Argos, por exemplo, escreveu sobre as “mulheres abelhas” que não freqüentam lugares ὄκου λέγουσιν ἀφροδισίους λόγους [óku légusin afrodisíus lógus] “onde se fala de sexo”.

O início mais sensato é aquele das próprias crianças: quanto as genitálias, tanto masculina quanto feminina, além dos costumeiros eufemismos quais ἀπόκρυφα [apókrifa] “escondido, oculto” e μόρια [mória] “parte, membro”, encontramos metáforas como γέρρα [guérra] “lugar fechado” e o extremamente popular κύων [kíoon] “cachorro”. É claro que há uma variedade de termos peculiarmente obscenos à disposição: para a genitália masculina, σάθη [sáthee] ou as mais ríspidas πέος [péos], κωλῆ [koolée] e ψωλός [psoolós]; a genitália masculina infantil, e provavelmente a masculina de dimensões menores em tons sarcásticos, era chamada de ὄφις [ófis] “cobra” e σαύρα [saúra] “lagartixa”, entre outros. O conhecido φαλλός [fallós] não era propriamente o pênis qual órgão sexual, mas a efígie de pênis utilizada em procissões religiosas; os sátiros a este relacionados foram batizados com expressões também relativas ao órgão sexual masculino, com nomes quais Τέρπων [Térpoon] “prazeiroso”, Οἴφων [Oífoon] “garanhão”, Πόσθων [Pósthoon] “com pênis de grandes dimensões” e Στύσιππος [Stísippos] “com uma ereção como de um cavalo”, dentre outros.

Para a genitália feminina, os termos literais são κύσθος [kísthos], κυσός [kisós] e, mais vulgarmente, ὔσσακος [íssakos]. As metáforas são especialmente relacionadas a animais e vegatais, como ἀηδονίς [aeedonís] “rouxinol” e λειμῶν [leimoon] “prado, campina”.

De qualquer modo, o termo fundamental para atos sexuais em grego (ou, em outras palavras, aquele que a maioria vai desejar aprender de cor) é βινῶ [binóo], para o qual a tradução que mantém a força de obscenidade é “foder” (diz-se que Sólon o teria utilizado em debates em oposição a ὀπυίειν [opinuíein], o sexo propriamente marital que na voz ativa é utilizado para o consorte, “assumir uma mulher”, e na voz passiva para a consorte, “ser desposada”). Como todos os demais termos deste post, é raro na prosa culta mas encontrado com certa freqüência em comédias, grafites, encantamentos, provérbios e sentenças; a variante βενῶ [benóo], por exemplo, vem de uma placa de bronze em Olímpia na qual são descritas as punições para quem praticasse atos sexuais dentro do templo.

Essencial e já tradicional é a citação de Aristófanes, Lisístra 934:

Μὰ Δί᾿ οὐδε δέομαι γ᾿, ἀλλὰ βινεῖν βούλομαι

(“Por Zeus, eu não quero um destes — mas quero foder!”).

É contudo provável que ao longo dos séculos do “grego antigo” o sentido tenha se especificado em certas ocasiões: Stratão, neste caso, limita o βινῶ ao sexo vaginal, contrapondo-o ao πυγίζειν [piguízein] masculino e menos vulgar, semântica reforçada por um tablete metálico que descreve os três orifícios feminínos aptos para o sexo, utilizando βινῶ para o sexo vaginal, πυγίζω [piguízoo] para o anal e λαικάζω [laikázoo] para o oral. Em compensação, há referências ao mesmo verbo em outros contextos, como a expressão βινεῖν στόματι [bineíin stómati] “foder com a boca”.

Como vimos a partir de Stratão, πυγίζω [piguízoo] é o termo utilizado para o sexo anal (vale contudo lembrar que o sexo masculino não se restringia ao anal, com ampla difusão do intrafemural, mas este é assunto para um post que fica, quiçá, para outra vez), derivado do relativamente trivial πυγή [piguée] (“traseiro”). Parece ter sido menos ofensivo que βινῶ, sendo utilizado apenas como repreensão ou protesto sem implicações diretamente sexuais (tal qual “vai te foder” em português); a exemplo, o termo foi encontrado grafado numa tigela, dirigido a quem pudesse pensar em furtá-la.

Em época bizantina λαικάζω substituiu βινῶ como termo geral para a prática sexual, mas é provável que inicialmente se restringisse apenas ao sexo oral praticado em homens. Quase todos os exemplos deste termo foram tramandados pela comédia ática; há exceções como um epigrama que descreve uma mulher idosa, fisicamente tão repulsiva que precisava se limitar ao sexo oral para obter a atenção de amantes, Luciano atribui a um homem efeminado o epíteto de λαικαλέος [laikaléos] em Lexiphanes e há uma ocorrência no relato do filósofo estóico Crisipo sobre uma lenda de Hera praticando sexo oral em Zeus.

Não por acaso, em sua magnífica resenha Diógenes Laertius diz que a linguagem adotada por Crisipo era mais próxima à das χαμαιτύποις [khamaitípois], “as que andam pelas ruas”, ou seja o mais baixo escalão de prostitutas, que à dos filósofos.
Entre os eufemismos para o ato sexual, cabe lembrar ποιῶ [poióo] “fazer”, συνευνάζομαι [sineunázomai] “deitar-se juntos” e παννυχίζω [pannikhízoo] “passar a noite”, além de um sem número de termos ligados à atividade rural e ao esporte, quais βόσκω [bóskoo] “alimentar” e κελητίζω [keletízoo] “cavalgar”.

Entre os termos não propriamente obscenos mas válidos a esta lista, cabe lembrar χαρίεντες [xaríentes] “libertino”, ἄστυτοι [ástitoi] “impotente”, ἡταιρηκῶς [eetaireekóos] “menino de aluguel” e a citação sobre uma cortesã chamada de δωδεκαμήχανος [doodekaméekhanos] “que conhece doze formas de amar”.

É evidente que as obscenidades não precisam ser limitadas à mera lexicalidade; é sempre possível divertir-se com cacofonias intencionais (principalmente para σκατός [skatós] “fezes, merda”) ou por meio de jogos semânticos como em Arquíloco:

ἡ δʹ ὥσπερ αὐλῶι βρῦτον ἤ Θρέιξ ἀνέρ
ἤ Φρὺξ ἕμυζε· κύβδα δʹ ἧν πονεομένη

(“Ela chupava como as Trácias e as Frígias [o fazem] com cerveja por um canudo, e estava curvada de tanta atividade”.)

domingo, 11 novembro 2007

Entartete Kunst, a exposição – parte I

Filed under: arte — tresoldi @ 9:59 pm

Em 30 de junho de 1930, tomando direção na luta à arte degenerada, Goebbels dera ordem para o confisco de toda obra do tipo. Estas foram mais tarde organizadas na torpe exposição de mesmo nome, Entartete Kunst, aleatoriamente mescladas à produção de diagnosticados doentes mentais (o que lembra tristemente as metodologias sobre Wain) e agrupadas sob dizeres quais “Revelação da alma racial judia”, “Fazendeiros alemães – uma visão Yiddish” e “A loucura torna-se um método”. Diversas foram as reações dos artistas degenerados: entre outros, exílio externo para Ernst, exílio interno para Dix e suicídio para Kirchner.

Eis uma amostra de tais obras, de ditos autores mas não necessariamente daquela exposição (inclusive uma fonte, em minha luta perene para difundir a tipografia como arte).

Mann mit Pferd

Jankel Adler, “Mann mit Pferd” (Homem com cavalo), 1929

The Magdeburger Ehrenmal, Barlach

Ernst Barlach, “The Magdeburger Ehrenmal”, ?

Andante II

Rudolf Bauer, “Allegro II”, 1918

Achitype Bayer

Herbert Bayer, fonte “Architype”, 1925

Karneval

Max Backmann, “Karneval” (Carnaval), 1943

Max Schmeling

Rudolf Belling, “Max Schmeling“, 1929

Campendonk

Heinrich Campendonk, título desconhecido, 1918

Pietá

Lovis Corinth, “Pietà”, 1920

Tropas avançando sob gás

Otto Dix, “Tropas avançando sob gás”, 1924

Gaberndorf II

Lyonel Feininger, “Gaberndorf II”, 1924

Dia cinza

George Grosz, “Dia cinza”, ?

Retrato de um homem

Erich Heckel, “Retrato de um homem”, 1919

Operário

Heinrich Hörle, “Arbeiter (Dritter Zustand)” [Operário (Terceiro estado)], 1923

Quartos escuros

Karl Hofer, “Os quartos escuros”, 1943

Rua de Berlim

Ernst Ludwig Kirchnew, “Rua de Berlim” (da série das prostitutas), 1913

O que conta é a trama

Filed under: literatura — tresoldi @ 5:42 pm

Visto que todos têm me pedido, eis meus resumos de obras literárias inspirados (e em certos casos traduzidos ou adaptados sem pudores) numa experiência análoga do Corriere della Sera.

Esperando Godot (Samuel Beckett)

Duas pessoas esperam por Godot, que nunca chega.

Alice no país das maravilhas (Lewis Carroll)

Menina curiosa em crise de megalomania persegue coelho para jogar cartas com rainha.

Doutor Zhivago (Boris Pasternak)

Médico indeciso apaixona-se por enfermeira; perde-a, reencontra-a, perde-a novamente e morre.

Hamlet (William Shakespeare)

Príncipe adolescente de inclinações espíritas busca vingar-se da mãe. Morrem todos.

Anna Karenina (Leo Tolstoy)

Esposa adúltera interessa-se por trens e falece devido a estes.

O barão das árvores (Italo Calvino)

Filho de aristocracia decadente decide morar em árvore para escapar do almoço.

O amor nos tempos do cólera (Gabriel García Marquez)

Teimoso jogador de xadrez Florentino Ariza apaixona-se por Fermina Daza e leva anos para conquista-la.

O velho e o mar (Ernest Hemingway)

Pescador de má sorte revela primeiros sinais de demência ao dialogar com tubarão.

Antígona (Sófocles, além de outros)

Moça de propensões necrófilas solicita cerimônia fúnebre para seu irmão. Morrem todos os bons.

A metamorfose (Frank Kafka)

Homem desperta em forma de inseto, mas sua rotina pouco muda.

Cândido ou O otimismo (Voltaire)

Dr. Pangloss afirma ser este o melhor dos mundos e, ao final, Cândido concorda.

Os sofrimentos do jovem Werther (Goethe)

Artista alemão apaixona-se por noiva de outro e beija-a. Em seguida, dá-se um tiro.

L’infinito (Giacomo Leopardi)

Abrucês virgem tem a visão do panorama obstruída por plantas.

O conde de Montecristo (Alexandre Dumas, père)

Edmundo gasta sua fortuna vingando-se de amigos que já não se lembram mais dele.

O corvo (Edgar Allan Poe)

Erudito solitário tem crise de insônia e põe a culpa em um pássaro.

Canzoniere (Francesco Petrarca)

Clérigo apaixona-se por mulher casada que morre à metade do livro. Nada mais de relevante acontece.

A consciência de Zeno (Italo Svevo)

Italiano suscetível não consegue parar de fumar.

O alquimista (Paulo Coelho)

Pastor enfadado abandona suas posses para percorrer o deserto; ao final, encontra consorte em oásis.

Decameron (Giovanni Boccaccio)

Dez florentinos devassos narram histórias enquanto seus vizinhos morrem.

Crime e castigo (Fyodor Dostoevsky)

Russo arrogante assassina impunemente velha mesquinha; uma prostituta convence-o a se entregar e cumprir pena na Sibéria.

Bíblia

Deus cria o mundo e, desiludido, inunda-o salvando um velho e alguns bichos. Quando seu filho chega em visita, não é reconhecido.

Eneida (Virgílio)

Romance urbano: guerreiro foge de Tróia, passa temporada lasciva em Cartago e funda Roma.

Ulisses (James Joyce)

“Querida, vou dar um passeio. Podes ficar na cama.”

Volta ao mundo em 80 dias (Jules Verne)

Inglês desocupado faz aposta geográfica e vence-a por ser pouco entendido no assunto.

Guerra e paz (Leo Tolstoy)

Ele ama-a, mas ela ama outro. Enquanto isso Napoleão invade a Rússia.

Odisséia (Homero)

Guerreiro retorna a casa após vários anos; ao chegar, sua mulher diz tê-lo esperado sozinha.

Ilíada (Homero)

Um monte de nomes, combatem durante dez anos por uma mulher que não lhes pertence.

Madame Bovary (Gustave Flaubert)

Francesa enfadada casa-se com médico entediante, trai-o e mata-se.

Fausto (Goethe, além de outros)

Cientista medieval julga-se mais versado que o Diabo, mas dá-se mal.

Comédia (Dante Alighieri)

Narigudo em crise de meia-idade narra viagem com colega de trabalho e ex.

Otelo (William Shakespeare)

Vêneto negro é convencido por amigo do adultério da esposa. Morrem todos.

Em busca do tempo perdido (Marcel Proust)

Francês prolixo come uma bolacha e escreve sete livros narrando o processo.

O processo (Frank Kafka)

(inacreditável, mas justiça austro-húngara era mais funesta que a brasileira)

O pequeno príncipe (Antoine de Saint Exupéry)

Piloto sem dons artísticos encontra um alienígena mordido por uma cobra.

Do sendo Hefesto o tecnológico entre os deuses

Filed under: clássico — tresoldi @ 2:00 pm

Ἥφαιστος δ᾽ ἅμα τοῖσι κίε σθένεϊ βλεμεαίνων
χωλεύων, ὑπὸ δὲ κνῆμαι ῥώοντο ἀραιαί.

(Homero, Ilíada 20.37)

(“E junto destes estava Hefesto, exultante de seu poder, cessando o passo, mas atrás de si suas pernas desfiguradas moviam-se ágeis”, tradução própria)

Minha literatura

Filed under: literatura — tresoldi @ 1:44 pm

Lídia Jorge, A manta do soldado ou O vale da paixão, 1998:

“Mas a escassez de pormenores fortalecia a imaginação de Francisco Dias.”

Talvez por isto receie sempre ser enganado pelos fluxos de consciência que pouco deixam aos interditos: mais valem as minúcias do escudo de Hefesto.

Blog no WordPress.com.